. Jairo Pires, o homem da música. - Rock Blues
junho 24, 2021

Rock Blues

Ribeirão

Fotos com Tim Maia e Roberto Carlos (arquivo pessoal)

Jairo Pires, o homem da música.

Costumo dizer que sou ‘escutador de histórias’. Tive o privilégio de entrevistar e conhecer muitas pessoas. Algumas foram marcantes.

Uma delas foi com Jairo Pires. Recebi a pauta para a entrevista que seria com um empresário da cidade que no passado teria sido importante no ramo de produção musical.

Fui sem muitas expectativas. O encontro foi marcado em um bar, o Pitel, na Vila Seixas. Como o combinado, cheguei e o encontrei. Ele, figura calma, estava sentado e me ofereceu um chope. Mantive a postura, disse que não.

Minha primeira pergunta foi formal: -“O senhor foi produtor musical. Quem, por exemplo, que discos, o senhor produziu?”.

Quando ouvi Roberto Carlos, Tim Maia, Zé Ramalho e mais umas dezenas de protagonistas da nossa música, fiquei surpreso.

A princípio, perguntei pra mim mesmo: Será?

Em síntese, a entrevista que demoraria no máximo 30 minutos se estendeu por muito mais tempo. O chope eu aceitei, porque aquelas histórias eram fantásticas. Uma das melhores que fiz. A matéria segue abaixo, caso você se interesse.

Uma pena que não encontrei a foto que dele com Roberto Carlos, na produção do primeiro disco, mas achei a do Tim Maia.

Até a próxima.

Segue a matéria publicada no jornal Tribuna em setembro de 2018:

Era do Vinil

O homem da música

Jairo Pires, empresário em Ribeirão foi produtor e diretor artístico de alguns dos principais nomes da musica brasileira.

Muitos dos principais discos lançados no Brasil têm como produtor ou diretor artístico Jairo Pires. Se você tiver um LP em vinil em casa, de algum grande artista das décadas de 60, 70, 80 e 90 possivelmente verá o nome de Pires publicado na obra. Se pesquisar na internet verá uma vasta coleção de discos.

Roberto Carlos, Erasmo Carlos, Júlio Iglesias, Tim Maia, Fagner, Zé Ramalho e muitos outros tiveram trabalhos produzidos por Pires. Muitos deles, na verdade, eram ilustres desconhecidos antes desses trabalhos. Jairo foi diretor artístico e produtor musical das principais gravadoras multinacionais estabelecidas no país. O que muitos desconhecem é que hoje, o responsável por grandes sucessos cantados e tocados no Brasil mora em Ribeirão Preto e é proprietário de um restaurante na zona Sul da cidade.

Convidamos Jairo Pires para uma entrevista. Depois de alguns contratempos, conseguimos. Uma sexta-feira à noite em um bar na Vila Seixas. O encontramos e a entrevista virou um bate papo. “Não gosto de entrevistas, fujo delas”, brincou no início. Mas boas histórias foram contadas e algumas serão resgatadas aqui.

O início

Jairo Pires foi criado no Rio de Janeiro, na Urca, dos 3 aos 31 anos. Era um jovem atleta. Foi nadador do Fluminense e remador do Flamengo, mas a música era sua paixão. Era da turma dos jovens cabeludos, dos roqueiros. Teve a felicidade de os pais terem uma situação financeira tranquila e naquela época, acesso aos discos de 78 rotações, o que era privilégio para poucos. Ouvia tais discos próximo ao pai e a paixão foi aumentando.

Jairo conta que certa ocasião mudou-se um senhor para o apartamento acima do dele e o morador também ouvia discos. “Ele colocava alto e eu mais ainda. Ficava aquela guerra…rs”. Mas certo dia foi convidado a uma festa no apartamento dele e ambos conversaram. “Me lembro que contei que queria trabalhar, ganhar o meu próprio dinheiro. Tinha uns 17 anos. Ele depois foi conversar com meu pai e ofereceu emprego. Meu pai autorizou. Fui então ao endereço. Cheguei lá e era a Columbia, fiquei espantado”, lembra.

A Columbia Records (posteriormente CBS) era uma filial da empresa com sede dos Estados Unidos (distribuía títulos da matriz americana como também revelava novos artistas, como Cauby Peixoto, Sérgio Murilo, entre outros). O vizinho de Jairo era Evandro Ribeiro (um dos nomes mais influentes no cenário musical) e que na ocasião era presidente da Columbia.

Jairo que gostava de música não perdeu a oportunidade. Aceitou a proposta e foi trabalhar de office boy. “Fazia serviço de banco. Levava discos nas rádios”, conta.

Ele ficou no cargo dois anos. O sonho era trabalhar no estúdio e um dia surgiu a oportunidade. “Meu serviço era primeiro na sala de corte, para cronometrar as músicas, depois fui para o estúdio, arrumar os microfones, puxar os cabos, coisa do tipo”.

Episódios interessantes

Jairo entre outras histórias contou duas interessantes nesse período inicial na Columbia, como office boy.

Em uma delas Evandro Ribeiro viajou para a Europa, mas ante o chamou. “Ele me pediu para que eu recebesse no apartamento e escutasse uns discos. Que anotasse as melhores músicas de cada álbum. Tinha um monte de discos e um monte de artistas, Cauby Peixoto, Lana Bitencourt, alguns internacionais, os grandes artistas da época. Fiz detalhadamente. Quando ele chegou eu entreguei. Depois fui ver que as músicas que eu havia escolhido se tornaram um disco com as melhores de cada artista”, conta.

Na outra, Evandro Ribeiro o convidou para levar amigos para ouvir um rapaz cantando e tocando.  “Fomos nós, os cabeludos. Nem sabíamos do que se tratava. Fomos na Aero Wiliams da Columbia para Copacabana. Era a casa do Carlos Imperial. Estava lá o diretor artístico da Columbia, Roberto Côrte Real e um rapaz tocando. Era o Roberto Carlos. Lógico que aprovamos…rs. A Columbia gravou o disco do Roberto, o ‘Louco por Você’ que ele não gosta, não sei porquê”.

Jairo acredita que esses episódios mostravam que Evandro Ribeiro queria algo maior para ele dentro da empresa. “Acho que foi um tipo de teste”.

Apesar disso, Jairo conta que Evandro segurava sua projeção dentro da empresa. “Sempre que surgia uma oportunidade ele dizia. ‘Calma com o menino’. Mas eu sempre estava à disposição”.

A confiança do chefe, o respeito dos colegas e sua dedicação renderam bons frutos. Depois desse período como office boy e ajudante de estúdio o salto na carreira foi considerável, se tornando uma espécie de vice diretor.

“O Roberto Corte Real saiu da Columbia e o Evandro começou a acumular os cargos de presidente e diretor artístico. Ele me colocou como braço dele. Ele confiava em mim e tinha a parte burocrática, foi então que eu comecei a comandar as gravações”, diz. “Isso antes da Jovem Guarda. Esse pessoal da Jovem Guarda só podia gravar quando tinha um espaço no final da noite e eu adorava essas gravações. A gente nem imaginava que seria Jovem Guarda… O grande ídolo era o Sérgio Murilo, mas que brigou com a diretoria e foi pra geladeira. Foi então que surgiu a aposta no Roberto Carlos”, conta. “Depois que a coisa aconteceu ele (Evandro) me deu a direção artística. Fui o mais novo diretor artístico da CBS (novo nome da Columbia)”.

Jairo gravou os principais nomes da Jovem Guarda, como Roberto Carlos, Renato e Seus Blues Caps, Wanderleia, Lafayete, Jerry Adriani, Ed Wilson, e outros.

Depois da CBS, Jairo saiu e voltou da gravadora por algumas vezes. Trabalhou em outras importantes como Polydor, Continental e teve a sua própria, a Lança Discos, em sociedade com Erasmo Carlos. Tais mudanças renderam outras histórias.

Roberto Carlos

Perguntado quem foi o mais difícil e o mais fácil para trabalhar, Jairo apontou; – “O mais difícil sempre foi o Roberto Carlos, ele nunca sabia o que queria… A gente gravava por horas e horas uma mesma música. Por exemplo, na gravação do ‘Quero que Vá Tudo Pro Inferno’ ele gravou um monte de vezes. Ninguém aguentava mais. Daí disse por técnico, guarda essa gravação, uma das primeiras, que ficou boa. Mostramos e ele não gostou. Disse, guarda. Já na madrugada mostrei novamente aquela que mandei guardar. Ele adorou. Falou que tínhamos acertado. Quase que o matei. Pediu pra ouvir de novo e eu falei que não, que era aquela e pronto…rs”, conta.

Sobre o mais fácil, Jairo disse que Jerry Adriane e Ed Wilson foram os mais fáceis.

Na Jovem Guarda, Jairo brinca que “penou pra ajudar a fazer estourar os sucessos”, mas que na hora boa foi ‘convidado’ por Evandro Ribeiro a fazer a renovação da CBS. “Ai eu criei as 14 Mais (um álbum com vários artistas) que foi um sucesso estrondoso”. “Foi bom que me tornei o mais novo diretor artístico da CBS do mundo”, relata.

Julio Iglesias

Uma das experiências marcantes na carreira de Jairo foi a gravação do disco Emanuela (em português) do cantor espanhol Júlio Iglesias.

“Fiquei 30 dias em Madrid para essa gravação. Foi o artista mais profissional que conheci”, lembra. “Ele, ele mesmo que era sucesso no mundo todo era quem me pagava no horário combinado para ir ao estúdio. Ia com sua Mercedez e me buscava no hotel”, conta.

O disco Emanuela foi o primeiro e um dos maiores sucessos no Brasil de Julio Iglesias.

Tim Maia

O primeiro disco do cantor Tim Maia foi produzido por Jairo Pires na CBS (Meu País). “Ali foi um divisor de água”, cita. Depois produziu o primeiro LP, já na Polydor, ‘Tim Maia’. “Eu e o Arnaldo Saccomani fizemos essa produção. Tinha Azul da Cor do Mar, Primavera, Coronê Antônio Bento. Foi um sucesso. Esse disco estava parado lá. Quando o Tim me viu, gritou: Jairo Pires, solta meu disco, fez a festa. Produzi 13 discos do Tim”.

Ao ser perguntado se assistiu o filme biográfico de Tim Maia, Jairo pela primeira vez na entrevista, se mostrou descontente, não com a reportagem, mas com o filme. “Não quis assistir, não vou assistir, sou revoltado. Gosto muito do Nelsinho (Nelson Mota), ele me pediu para dar entrevista, fui na casa dele. Fui na Globo e participei daquele especial. Falei só da arte do Tim. Não admito que fale das coisas do Tim, caso de maconha, que não ia a estúdio…ah isso não. Quando eu entrava no estúdio do Tim Maia eu reciclava minha vida em dez anos, ele sabia tudo, ela tocava tudo. Eu ia pra casa dele, ele de manhãzinha tomava o banho, o café dele, a gente programava e ele não falhava”, fala sobre o cantor.

Para Jairo, ‘Me dê Motivos’, produzido por ele e na gravadora dele com Erasmo, a Lança Disco, foi o melhor trabalho de Tim. “E não é porque foi na minha gravadora não”, ressalta.

Jairo Pires conta outra história de Tim Maia interessante. Ele havia sido convidado para implantar cantores e músicas populares na Continental, mas pediram para que levasse o Tim Maia para a gravadora.

“Eu liguei para o Tim e sabia que ele estava negociando com uma gravadora. Perguntei se ele havia assinado e ele falou que não, mas ao receber o convite disse assim: – ‘Pô Jairo, você tá de brincadeira. Lá só tem sertanejo’. Eu disse que sim, e que ele seria o principal. Ele parou e pensou. Mandou eu ir pra São Paulo com o cheque. Chegando lá, pegou o cheque, mandou descontar na hora, eu sabia disso, e depois quando chegou o dinheiro assinou, o pessoal da Continental não acreditava…rs”, conta.

Nordestinos

Em seu retorno à CBS, Jairo encontrou um cenário desfavorável, com os cantores baianos (Gil, Caetano e cia) na Polygram, os mineiros (Milton Nascimento, Beto Guedes, e a turma do Clube da Esquina) na EMI. “Ai eu pensei, o que eu vou fazer e a MPB pegando fogo. A coisa tava bem definida. Pensei, vou atacar os Nordestinos. Lancei Zé Ramalho, Elba Ramalho, Baby e Pepeu, Amelinha e o Fagner que já existia, mas não fazia sucesso. Todo mundo me chamou de louco. Mas eu investi, acreditei. Fiz convenção no Brasil inteiro. Paguei hotel para eles um ano inteiro no Rio, em Copacabana, para que eles estourassem depois e felizmente deu certo”.

Novos planos

Jairo contou outras e muitas histórias sobre lançamentos de artistas consagrados em suas épocas, com produção dele, como Odair José, Erasmo Carlos (entre eles o disco ‘Convida’ e ‘Mulher’, que colocou o cantor na carreira romântica), Evaldo Braga e outros. Disse que com o passar dos tempos, as mudanças de vinil para CD e as novas tecnologias, além das multinacionais investirem em profissionais fora da música. “Resolveram contratar o pessoal do marketing da Pepsi e empresas de outros setores”, conta. Tudo isso mudou o cenário. Paralelo a esses acontecimentos, teve que resolver situações familiares e deixar o Rio de Janeiro, mudando para Ribeirão Preto.

Aqui é empresário no ramo de alimentação, na zona Sul da cidade, mas está finalizando um projeto de retomada da Lança Discos, partindo para a era digital. Pela sua experiência e conhecimento o negócio tem tudo para dar certo.